sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma carta para Oliver - Parte I

Deveriam ser umas seis horas da noite. Ou da tarde. Oliver nunca teve apego a esse tipo de detalhe. Acordou assustado com o barulho da campainha. Estava assistindo televisão no sofá da sala, o que resulta por dormir e a derramar saliva entre uma almofada e outra. Passou as palmas das mãos pelo rosto tentando clarear as ideias. O que era em vão, pois a campainha insistia em berrar aquele "triiiiiiim" estridente.
- Já escutei. Já estou indo!
Abriu a porta sem perguntar para quem. Era sua irmã. Vestia um casaco amarelo com uns botões prateados, uma calça jeans e botas couro com salto fino. O casaco estava aberto, e deixava à mostra uma blusa branca com decote V. Seu cabelo artificialmente loiro dava um toque a mais a sua delicadeza, que era eventualmente acentuada por alguns acessórios. Oliver não tinha visto sua irmã durante o café da manhã, e de acordo com seu vestuário, ela não estava vindo do trabalho, ou da faculdade. Por um momento, ficou até com duvidas sobre onde a garota tinha passado a noite passada.
Ela trazia consigo uma bolsa de cor turquesa (aquela cor-que-não-se-sabe-se-é-verde-ou-azul) e uns envelopes nas mãos. Reclamou sobre a demora para abrir a porta e disse:
- Toma.
Oliver ficou confuso, e perguntou o que era.
-É uma carta endereçada a você, seu tonto. O que mais parece ser?
De fato, era um relacionamento hostil. Mas ele não dava importância a isso. Já estava acostumado.
"É verdade", pensou Oliver. "O que mais poderia haver aí? Uma bomba? Uma forca? Um punhal amaldiçoado? São só inofensivas palavras".
Foi até o seu quarto, trancou a porta, sentou na cama, e não encontrava alguma coragem para ler o que continha em suas mãos. A Garota-do-trem tinha escrito para ele - para ele! - e aquilo era surreal demais para sua linha de raciocínio.
"Vou terminar logo com essa peleja" e assim abriu a carta.


continua...