domingo, 15 de maio de 2011

Uma carta para Oliver - Parte II

(continuando)



Rasgou o envelope, quase não prestando atenção se iria rasgar o conteúdo. estava ansioso, o coração batia tão fora de ritmo quanto o som de um pandeiro com uma gaita e três cantores desafinados. nem ele sabia como dar ordem a essa confusão. Respirou fundo, olhou superficialmente a caligrafia ali inserida e começou a ler.



"Oi Olie. Fiquei alarmada com o teor melancólico de sua ultima carta. O que tem acontecido? Está tudo nos trilhos? Por favor, assim que terminar de ler isso, me responda, pois estou angustiada.
Vi em um jornal na televisão que a sua cidade quase ficou inundada. Espero que não tenha sido com essas suas lágrimas.
Ah, estou muito bem, a propósito. Não sou mais a garota perdida no trem sempre a vagar. Finalmente encontrei a minha estação, e por lá fiquei. Estar em terra firme é algo mágico, e só quem passou tempos a andarilhar sabe. A primeira coisa que fiz, foi ir à sorveteria, ainda perto dos trens. Estava lotada, mas encontrei uma mesinha disponível. Então, estava lá, eu e meu delicioso sorvete, e um estranho apareceu pedindo para dividir a mesa. Obviamente, eu deixei, pois você mesmo me dizia que deveria ser simpática. Quando percebi, caro Oliver, eu ansiava por uma ligação daquele moço. Hoje nós estamos namorando, e isso já dura um mês.
A vida é totalmente diferente sendo vista do lado de fora do trem. As cores parecem absorver os objetos, e não o contrario. Tudo causa interesse, e quando percebo, já estou colocando uma mão cheias de dedos e analisando e tocando e... Ah, quero olhar nos seus olhos o quanto antes, tocar sua face, beijar suas bochechas...
Escreva o quanto antes para deliciar-me de tua presença.


Com amor, Michelle, a sua Garota-do-trem."

Oliver estava sufocando, e só então percebeu que estava sem respirar. Percebeu que tinha perdido a Garota-do-trem e que a culpa era de um garoto egoísta. Quis gritar, espernear, e ter Michelle ali, frente a frente, para fazê-la engolir todas letras escritas com uma caneta preta e o papel decorado com carinhas mediocremente felizes. Sentia nojo daquela ironia dos infernos."Estúpido garoto egoísta que roubou aquilo que sempre foi meu de direito", pensava. Mas, quem estava sendo egocêntrico ali? Oliver sabia a resposta, mas não queria aceitar aquilo. Desmoronava por dentro de seus olhos e desejava nunca ter nascido.
Por que? Ela era moça comum, igual a todas as outras.

(Não, ela não era.)
(Nem desejando e tapando as vistas assim seria)

Estava tudo perdido. Jogado, adentrando toda umidade do ralo.

(Oliver não iria deixar)