quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Sobre uma despedida ao último voo.



"Não sei o que seria de Vossa Senhoria caso este servo tão cansado apenas ficasse saturado de toda a atmosfera clínica deste romance psicológico. Entenda que nos tempos de hoje, provindo da geração da sétima lei, não há nada que realmente me prenda a esta condição de serventia, pois eu, ser por demais estudado, fino e dotado de talentos únicos, características que Vossa Senhoria, por ofício do destino poderia ter (mas não tem), estou sentindo que toda a minha graça e potencial estão sendo desperdiçados.
O mundo diz que quer me ver, e quem sou eu para negar um pedido ao mundo? Aqui, neste lugar que tu me designastes, estou camuflado, escondido e trancado por dois cadeados, já que brilho demais. É como colocar uma borboleta laranja em um pote na estante do seu quarto. Acredite, não é bom voar tanto e não mudar o limite de voo. E por tal situação, somada ao seu descuido rotineiro de deixar a tampa do pote aberta, que eu após muito refletir se deveria ou não aproveitar tal oportunidade para voar além dos limites que me foram designados por você, decidi o que fazer.
Pensei demais e fritei meu cérebro de borboleta, porque apesar de todas as correntes e todas as faltas de consideração para com a minha existência, houveram momentos bons. Muito bons, ótimos, terríveis. Então voltei ao ponto de partida.
Sei que jamais riria da tua cara pelo descuido de me perder. “Eu tinha ido embora desde o primeiro dia”. E talvez seja essa a verdade. Espero que você ache outros que gostem da rotina, pois eu estou me mudando, saindo daqui. Adeus, bye bye, saionara,  revoir. Obrigada, mas sinto em dizer que não dá mais p'ra mim.
E quanto tu olhares pela janela e me ver voando pelos campos, não sinta ódio, algum tipo de sentimento de vingança, raiva, ciúmes da luz e das flores. Pense que eu já bati asas no seu quarto e que valeu a pena o vento que eu movimentei com esse batido de asas."

Texto de Monike Lima